rio eixo

rio eixo

a mulher embala embala seu menino morto; seu corpo o aquece ele at fala: me, meu sangue ralo pouco e roto a me quase grita: cala! sustenta o ltimo sopro meus braos so quentes e embalam embalam. me, diz o menino, me enterra, estou morto. a me sufoca o grito o rosto magro seco j no h pranto me, descansa, pede o menino me tira do teu peito segue outro destino vai parir outro filho que no existo mais a me hesita teimosa solene arfante embala embala o filho morto embala e no sofre mais e de tanto proteger a sua cria a me esquece o rosto os braos as pernas e vai supondo que est vivo seu menino aguarda dele a promessa de um destino que quando vivo lhe augurou o pai. costurou lhe dozouto roupas cada qual mais altaneira o quero impvido, colosso! e o tempo foi se a passar minguou o corpo do menino morto as roupas restaram inteiras com elas, as dezouto, costurou uma bandeira a na cumeeira da casa a desfraldou no ar. tremula noite ela tem as aves no telhado com quem falar. as aves quedam mudas. so aves e a seu modo cada uma resume o seu cismar um sapo ri no brejo no acredita que aves sbrias conversem com um pano sujo roto desbotado do telhado a coruja solene no oco do caminho repete eu falei eu falei que o menino no iria vingar o bacurau transido de frio avisa e os olhos arregala tem morto na sala me, perguntou com voz fraca o menino morto. sou um travesti da lapa? criana voc ser de tudo um pouco ningum ver menino como esse porque voc tem f e orgulho do ventre onde nasceu o menino morto pensa medita pasmado com seu destino mesmo morto ter de existir ainda? me, tenho por acaso algum destino? porque voc nasceu em bero esplndido, apesar de no poder perceber aqui, neste lugar humilde, antes de existir j lhe traaram a vida no fui eu gostaria que voc fosse o meu menino para vigiar sempre e cobri lo em seu sono mas cedo ainda o arrancaram de meu ventre afirmaram: pasmem! no ilha, continente, to rico, to frtil, to promisso tragam venham surjam de portugal as suas gentes de outras terras mais e mais acaba de ser descoberto o promissor e eu o perdi filho, que um dia gerei e eu o perdi filho, que um dia chorei e meu pranto foi to forte to fecundo que criou os rios que h no mundo os mares que por a se vo. hoje no choro mais sequei mas filho cumpre sua misso! o filho morto os olhos de susto arregala como morto posso cumprir sinas? e engatinha se arrastando inventa seu caminho pensando que direciona seu destino caminha em crculos girando o prprio corpo aflito ao tropear no seu sentido atento comandos vos.
rio eixo